
O termo virada hidroclimática descreve a passagem rápida de uma condição climática extrema para outra: de um período muito seco para um muito úmido, ou o caminho inverso. Mais do que medir quanto choveu ou quanto durou uma seca, pesquisadores passaram a investigar se essas transições ajudam a explicar quando um surto de dengue começa.
Um estudo publicado em setembro de 2026 na revista Cell Reports Sustainability (Mazzoleni e colaboradores) analisou dados de 13 países da América Latina, do Sudeste Asiático e da Oceania, em 276 áreas subnacionais, entre 1990 e 2021. O início dos surtos de dengue esteve associado à proximidade dessas viradas, sobretudo na passagem de períodos úmidos para secos, com defasagem de até um mês. Os autores são explícitos em um ponto: o fenômeno, sozinho, não prevê um surto. Temperatura, umidade e as características de cada região também pesam, e a desigualdade social apareceu como o fator que mais amplifica o risco nos períodos de extremos climáticos.
Os resultados ajudam a mostrar por que a relação entre clima, mosquito e dengue é mais complexa do que associar mais casos à chuva. O próprio estudo encontrou diferenças importantes entre as regiões analisadas: não importa apenas se está seco ou chuvoso, mas a velocidade e a direção da mudança, e o território onde ela acontece.
Para o Brasil, a leitura é direta. O país saiu de uma seca histórica em 2024 e entra na temporada 2026/2027 com alerta de El Niño. Se o início dos surtos se associa à transição entre extremos, com defasagem de zero a um mês, o município que só reage quando os casos sobem, fica atrasado. O controle vetorial precisa ser contínuo, e a informação sobre o território passa a valer mais do que a intervenção pontual.
É nessa lógica que a Biotraps se insere: uma ferramenta complementar às estratégias de controle do Aedes aegypti já adotadas pelos municípios e pelo Programa Nacional, de operação simples (basta adicionar água), que atua sobre o mosquito nas fases de ovo, larva e adulto, conforme rotulagem aprovada pela ANVISA, e pode integrar rotinas de campo ao longo de todo o ano.